Espetáculo inédito chega aos palcos cariocas em curta temporada, com Ana Hartmann no elenco e na produção e direção compartilhada com Joana Medeiros
Um dos textos mais enigmáticos de Clarice Lispector chega aos palcos do Rio de Janeiro em uma montagem inédita. “O Ovo e a Galinha” estreia nesta quinta-feira (4), às 20h, no Teatro Ziembinski, na Tijuca, na Zona Norte do Rio.
A montagem é produzida e encenada por Ana Hartmann, que também divide a direção cênica com Joana Medeiros. O espetáculo parte do conto publicado originalmente em 1964, na coletânea A Legião Estrangeira, e transforma em experiência teatral o fluxo de consciência presente na obra de Clarice.
Texto de Clarice chega ao palco na íntegra
A montagem mantém o conto original sem alterações. A proposta é levar o público para dentro das reflexões da escritora a partir da observação aparentemente simples de um ovo sobre a mesa da cozinha.
Segundo Ana Hartmann, o processo de criação teve como ponto de partida uma leitura realizada por Clarice Lispector em 1975, durante o Primeiro Simpósio de Bruxaria de Bogotá, na Colômbia.
A partir desse episódio, a montagem construiu uma personagem que atravessa diferentes estados de consciência, entre alucinação, silêncio, euforia, nudez e desespero.
“Partimos de um acontecimento real, a leitura do texto que Clarice fez em 1975, durante o Primeiro Simpósio de Bruxaria de Bogotá, na Colômbia. A partir daí, tínhamos um lugar, uma personagem e uma ação muito clara: alguém tentando contar ao outro uma experiência pessoal tão profundamente transformadora que desestabiliza a própria noção de realidade”, explica Ana.
Da performance ao espetáculo
O espetáculo passou por diferentes formatos até chegar à montagem que será apresentada no Rio.
A trajetória começou em 2017, quando Joana Medeiros realizou uma performance baseada no texto. Dois anos depois, em 2019, o trabalho integrou a programação do Thursday Night Live, do Instituto Het Nieuwe, na Holanda, com apresentação em Roterdã.
No mesmo ano, Ana Hartmann iniciou seus estudos sobre o texto. Posteriormente, a atriz passou a integrar a montagem, que também teve um ensaio aberto no Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, em São Paulo.
Agora, a produção chega ao Rio em sua versão considerada definitiva.
Cenário, som e atmosfera espectral
Para transformar o fluxo de consciência de Clarice em uma experiência cênica, a montagem utiliza elementos de iluminação, som e cenografia desenvolvidos durante o processo de pesquisa.
Entre os recursos utilizados está o theremin, instrumento conhecido por produzir uma sonoridade peculiar e quase fantasmagórica, utilizado para reforçar a atmosfera da peça.
Documentos e materiais de arquivo relacionados ao simpósio realizado em Bogotá também foram incorporados ao espetáculo.
A montagem busca ainda explorar a relação de Clarice com temas como a vida interior das galinhas, a epifania diante de objetos cotidianos e diferentes formas de compreender o amor.
“Ela não vai apenas no sentido do ovo, de Deus, mas também do cotidiano e de coisas tão importantes como o amor. Sua visão sobre o amor é uma provocação, por exemplo, que nos inquietou todo esse tempo”, afirma Ana.
Uma experiência para quem conhece — e para quem nunca leu
Para a atriz, manter o conto integralmente é uma das principais características da montagem.
“Mudar o texto seria fazê-lo vir até nós. E o barato dessa peça é a gente ir em direção ao texto”, afirma.
A expectativa da produção é que o espetáculo dialogue tanto com quem já conhece a obra de Clarice Lispector quanto com espectadores que terão o primeiro contato com o conto no teatro.
“Quem já conhece o conto talvez encontre a surpresa da audácia de vê-lo encenado. Mas, mais do que isso, encontrará o prazer de compartilhar esse deslumbramento com outras pessoas”, completa Ana.
Serviço
Espetáculo: “O Ovo e a Galinha”
Texto: Clarice Lispector
Atriz e produtora: Ana Hartmann
Direção: Ana Hartmann e Joana Medeiros
Estreia: 4 de setembro, às 20h
Local: Teatro Ziembinski — Tijuca, Rio de Janeiro
Temporada: curta temporada
