No Grajaú, crianças e famílias voltaram a percorrer o bairro atrás dos tradicionais saquinhos de doces; movimentação registrada pelo Fato Fluminense mostra um costume carioca que atravessa gerações
Quem cresceu no Rio conhece a pergunta: “Onde tá dando doce?”
Neste domingo (27), Dia de São Cosme e Damião na tradição popular, uma cena que durante décadas marcou a infância de milhares de cariocas voltou a chamar atenção nas ruas: crianças caminhando com sacolas nas mãos, famílias inteiras procurando os pontos de distribuição e moradores entregando os tradicionais saquinhos de doces.
O Fato Fluminense registrou a movimentação no Grajaú, na Zona Norte, e encontrou um cenário que remete aos tempos em que o dia 27 de setembro transformava as ruas dos bairros cariocas.
Em poucos minutos circulando pelo bairro, foi possível encontrar diversos pontos de distribuição de doces.
Em outro ponto, registrado em vídeo pelo Fato Fluminense, várias crianças se reuniram ao redor de um carro para receber os saquinhos distribuídos por moradores.
E não faltava gente procurando.
Pais acompanhavam os filhos pelas ruas enquanto outras famílias chegavam com doces preparados especialmente para manter viva a tradição.
Um costume que dá sinais de fortalecimento
Nos últimos anos, tornou-se comum ouvir cariocas dizerem que a tradição de distribuir doces no Dia de São Cosme e Damião estava diminuindo.
Mas a movimentação encontrada neste domingo sugere que o costume permanece vivo e dá sinais de fortalecimento.
O fenômeno não está restrito ao Grajaú.
Neste domingo, eventos em diferentes regiões do Rio também celebram a data. Na Penha Circular, o Viradão Cultural Suburbano abriu sua programação com distribuição de saquinhos para crianças.
No Centro, a Rua da Carioca recebe uma festa gratuita com distribuição de doces, brincadeiras e atividades infantis.
Em outros bairros, moradores passaram a utilizar as redes sociais para divulgar endereços e horários de distribuição, criando verdadeiros mapas dos doces.
Muito além das guloseimas
A tradição carioca é resultado do encontro de diferentes manifestações religiosas e culturais.
Cosme e Damião são irmãos gêmeos venerados como santos pelo cristianismo e associados, no Brasil, aos Ibejis das tradições de matriz africana. Na Umbanda, a celebração também está ligada aos erês e à infância.
Foi desse encontro entre diferentes tradições que a distribuição de doces para crianças ganhou enorme força no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro.
A Igreja Católica celebra atualmente São Cosme e São Damião em 26 de setembro, enquanto a tradição popular e as religiões de matriz africana mantiveram o dia 27 como uma das principais datas da celebração.
Memória que passa de pais para filhos
Para muitas famílias cariocas, sair para pegar doce nunca foi apenas voltar para casa com uma sacola cheia de balas, paçocas, cocadas e pés de moleque.
Era também um ritual da infância.
Pais que décadas atrás corriam pelas ruas atrás dos saquinhos hoje levam seus próprios filhos para viver a mesma experiência.
E talvez esteja justamente aí uma das razões para a permanência da tradição.
Neste domingo, no Grajaú, a cena se repetiu mais uma vez: crianças perguntando onde havia doce, adultos indicando os próximos endereços e carros parando para distribuir saquinhos.
Uma tradição que chegou a parecer cada vez mais rara em algumas regiões voltou a ocupar as calçadas.
E, pelo menos neste 27 de setembro, uma das memórias mais afetivas do Rio mostrou que continua bastante viva.
📹 Imagens: Fato Fluminense
