Em cartaz no Teatro Municipal Ipanema Rubens Corrêa até 1º de novembro, monólogo revisita o assassinato do estudante Edson Luís durante a ditadura militar e propõe uma reflexão sobre memória, desigualdade e apagamento histórico
O ator, dramaturgo e diretor Matheus Macena está de volta aos palcos cariocas com o espetáculo “Edson”, monólogo que conquistou cinco indicações ao 37º Prêmio Shell de Teatro. Após temporadas no Rio de Janeiro e em São Paulo, além de uma apresentação em Buenos Aires, na Argentina, a montagem realiza uma curta temporada no Teatro Municipal Ipanema Rubens Corrêa, na Zona Sul do Rio.
Em cartaz desde 9 de outubro, o espetáculo segue com apresentações até 1º de novembro, às sextas-feiras e aos sábados, às 20h, e aos domingos, às 19h.
Escrito, dirigido e interpretado por Matheus Macena, o trabalho resgata a trajetória de Edson Luís de Lima Souto, estudante secundarista de 17 anos assassinado durante a ditadura militar, em março de 1968, no Rio de Janeiro.
A montagem combina pesquisa documental, dramaturgia e música para abordar não apenas o episódio histórico, mas também a vida familiar e as condições sociais do jovem.
Espetáculo conquista cinco indicações ao Prêmio Shell
O reconhecimento da crítica veio após as primeiras temporadas da montagem.
“Edson” recebeu cinco indicações ao 37º Prêmio Shell de Teatro, uma das principais premiações das artes cênicas brasileiras.
Matheus Macena concorre duas vezes na categoria Melhor Ator, pelas temporadas realizadas no Rio de Janeiro e em São Paulo.
O espetáculo também recebeu indicações nas categorias Melhor Dramaturgia, pelo trabalho de Matheus Macena; Melhor Música, de Pedro Nego; e Melhor Cenário, de Bidi Bujnowski.
Para o artista, as indicações representam um reconhecimento importante para uma produção independente.
“Saber que nosso trabalho tão suado toca no coração das pessoas e, para além disso, está alçado aos melhores do ano, é muito gratificante”, comemora.
Macena destaca que a montagem nasceu de um processo autoral, sem patrocínio, e espera que a repercussão contribua para ampliar a trajetória do espetáculo.
O ator já conhece o reconhecimento do Prêmio Shell. Em 2024, venceu a categoria Melhor Ator por sua atuação em “Musical Pré-Fabricado”, de Michel Melamed.
Assassinato de Edson Luís marcou a história brasileira
O espetáculo parte de um dos episódios mais emblemáticos da ditadura militar.
Em 28 de março de 1968, Edson Luís de Lima Souto, então com 17 anos, foi morto pela polícia durante uma manifestação de estudantes no restaurante Calabouço, no Centro do Rio de Janeiro.
O jovem participava de um movimento que reivindicava melhores condições de alimentação para os estudantes.
Sua morte provocou grande comoção nacional e se tornou um dos símbolos da resistência ao regime militar.
Meses depois, em junho de 1968, o Rio de Janeiro foi palco da histórica Passeata dos Cem Mil, que reuniu estudantes, artistas, intelectuais e diferentes setores da sociedade em protesto contra a repressão.
Na montagem, Matheus Macena procura apresentar a história de Edson Luís para além do episódio de sua morte, explorando sua origem familiar, suas dificuldades e as condições de vida enfrentadas pelo estudante.
Peça apresenta a história pelo olhar dos trabalhadores
Um dos principais diferenciais de “Edson” é a perspectiva escolhida para reconstruir o período da ditadura.
Em vez de concentrar a narrativa exclusivamente nos acontecimentos políticos, o espetáculo acompanha a trajetória da família Lima Souto, desde sua saída de Belém do Pará até a morte do jovem no Rio de Janeiro.
Pai, mãe, irmã e Edson são personagens que ajudam a construir uma representação das experiências de famílias brasileiras marcadas pela migração, pelo trabalho e pelas desigualdades sociais.
O artista destaca que o estudante enfrentou dificuldades relacionadas à pobreza e ao acesso à educação.
“É inadmissível que a história do jovem assassinado pela ditadura militar e que se tornou o pivô da histórica Passeata dos Cem Mil permaneça sem ser contada”, afirma Matheus.
Segundo ele, o objetivo é apresentar a história nacional a partir da perspectiva de trabalhadores de base, migrantes e pessoas que tiveram suas experiências frequentemente deixadas de lado nos registros históricos.
Morte de Marielle Franco inspirou criação do espetáculo
A ideia de desenvolver o monólogo surgiu em março de 2018, logo após o assassinato da vereadora Marielle Franco.
Matheus Macena percebeu a proximidade histórica entre as mortes de Marielle e Edson Luís, ocorridas com 50 anos de diferença.
A partir dessa reflexão, iniciou um processo de pesquisa sobre a trajetória do estudante e sobre os mecanismos de apagamento de determinadas histórias na memória brasileira.
O ator passou meses consultando arquivos da Biblioteca Nacional, incluindo jornais antigos, reportagens e registros produzidos durante o regime militar.
A investigação serviu de base para uma dramaturgia que combina acontecimentos documentados com situações ficcionais.
“Conforme o processo artístico caminhava, notei que a justiça dos fatos não era suficiente. Era necessário fabular. Afinal, para um espetáculo teatral é através da poesia que se descobre dignidade”, explica.
Música integra a narrativa do monólogo
A montagem conta com a participação do diretor musical e guitarrista Pedro Nego, também indicado ao Prêmio Shell.
A música é utilizada como elemento da narrativa, acompanhando as diferentes situações apresentadas em cena e contribuindo para a construção emocional do espetáculo.
A cenografia e os figurinos são assinados por Bidi Bujnowski, enquanto Gabriel Prieto responde pela direção técnica e iluminação.
Ao assumir simultaneamente a dramaturgia, a direção e a interpretação, Matheus Macena considera o trabalho um marco em sua trajetória profissional.
É a primeira vez que o artista realiza um monólogo e dirige a própria atuação.
Temporada acontece durante período eleitoral
A escolha do período da nova temporada carioca foi intencional, segundo Matheus Macena.
O ator explica que desejava apresentar uma obra sobre o movimento estudantil e a memória política brasileira durante o processo eleitoral de 2026.
“A segunda temporada carioca acompanhará o processo de eleição. E isso foi intencional, quero uma peça sobre o movimento estudantil acompanhando a ida às urnas, sinto que isso faz parte da minha responsabilidade como artista”, afirma.
Para o artista, o teatro representa um espaço importante para a reflexão sobre acontecimentos históricos e questões sociais contemporâneas.
Matheus Macena reúne trajetória no teatro e audiovisual
Carioca de 31 anos, Matheus Macena possui uma trajetória marcada por trabalhos no teatro, cinema e televisão.
Além de “Musical Pré-Fabricado”, espetáculo pelo qual conquistou o Prêmio Shell de Melhor Ator em 2024, participou de montagens como “Caranguejo Overdrive”, “Guanabara Canibal”, “Encantado” e “Veias Abertas 60′ 30′ 15’”.
Por “Caranguejo Overdrive”, recebeu indicações aos prêmios Cesgranrio, APTR e Shell na categoria Melhor Ator, em 2015.
No audiovisual, integrou o elenco da novela “Guerreiros do Sol” e de filmes como “Um Animal Amarelo”, “Transe”, “Carne Fresca”, “Baleia” e “Assalto à Brasileira”.
Também escreveu e dirigiu o curta-metragem “Baby”, no qual aborda a crise climática a partir de uma perspectiva afrodiaspórica.
Serviço
Espetáculo: Edson
Temporada: 9 de outubro a 1º de novembro de 2026
Dias e horários: Sextas-feiras e sábados, às 20h; domingos, às 19h
Local: Teatro Municipal Ipanema Rubens Corrêa
Endereço: Rua Prudente de Moraes, 824 – Ipanema, Rio de Janeiro
Ingressos: R$ 70 (inteira) e R$ 35 (meia-entrada)
Vendas: Plataforma Bileto/Sympla
Classificação indicativa: 16 anos
Duração: 75 minutos
Informações: (21) 2523-9794
Instagram: @edson.espetaculo
Direção, dramaturgia e atuação: Matheus Macena
Direção musical: Pedro Nego
Cenografia e figurinos: Bidi Bujnowski
Direção técnica e iluminação: Gabriel Prieto
Fotografia: Lucas Nogueira
Fonte: Divulgação / Assessoria de imprensa.
