Enquanto toneladas de alimentos são desperdiçadas, iniciativas sociais e políticas públicas buscam garantir comida na mesa de famílias em situação de vulnerabilidade
O desperdício de alimentos continua sendo um dos grandes desafios do Brasil. Enquanto produtos próprios para consumo acabam descartados ao longo da cadeia de produção e comercialização, milhares de famílias enfrentam dificuldades para garantir uma alimentação adequada.
No Rio de Janeiro, leis aprovadas pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), programas de redistribuição de alimentos e iniciativas de organizações sociais procuram reduzir essa desigualdade.
O tema ganhou destaque durante o Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, reforçando a importância de políticas públicas que conectem o excedente de alimentos às pessoas que mais precisam.
Brasil enfrenta perdas em toda a cadeia alimentar
O desperdício não acontece apenas dentro das residências. As perdas começam ainda no campo, durante o plantio e a colheita, e continuam nas etapas de armazenamento, transporte, comercialização e consumo.
De acordo com estimativa citada pelo Pacto Contra a Fome em setembro de 2026, cada brasileiro desperdiça aproximadamente 77 quilos de alimentos por ano.
Um diagnóstico elaborado pela organização em parceria com a Integration Consulting, em 2022, estimou perdas e desperdício de aproximadamente 55,4 milhões de toneladas anuais ao longo da cadeia alimentar brasileira.
Os números demonstram a dimensão do problema e a necessidade de ampliar estratégias de reaproveitamento e redistribuição.
Programa distribuiu alimentos suficientes para 490 mil refeições no Rio
Uma das iniciativas desenvolvidas no estado é o programa Destino Certo, do Assaí Atacadista.
Entre janeiro e agosto de 2026, a ação encaminhou 267 toneladas de frutas, legumes e verduras para organizações sociais e bancos de alimentos no Rio de Janeiro.
Segundo o balanço divulgado, os produtos contribuíram para o preparo de aproximadamente 490 mil refeições.
Os alimentos redistribuídos apresentavam características visuais que dificultavam sua comercialização, mas permaneciam adequados ao consumo.
A iniciativa demonstra como produtos que poderiam ser descartados podem ajudar a combater a insegurança alimentar.
Tecnologia conecta empresas e instituições sociais
O Instituto Fome de Tudo, fundado por Úrsula Corona, utiliza ferramentas tecnológicas para aproximar empresas com excedentes alimentares de instituições que atendem pessoas em situação de vulnerabilidade.
Segundo a organização, a iniciativa já contribuiu para a distribuição de 9 milhões de refeições e beneficiou aproximadamente 400 mil pessoas.
A operação movimenta cerca de 500 toneladas de alimentos por mês e reúne uma rede de 4,5 mil parceiros.
Além da redistribuição, o instituto trabalha para fortalecer pequenos produtores e ampliar o alcance das ações de combate à fome.
“O que mais quero é contribuir com o nosso país e escalar nossa tecnologia para empoderar economicamente cada vez mais os pequenos produtores”, afirma Úrsula Corona.
Em parceria com o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas, o instituto também desenvolve a campanha Fome Não Tira Férias.
A iniciativa busca garantir apoio alimentar a crianças durante férias e recessos escolares, períodos em que muitos estudantes deixam de receber refeições oferecidas nas escolas.
Ceasa e Sesc ampliam rede de solidariedade
No Rio de Janeiro, o Banco de Alimentos da Ceasa também desempenha papel importante na redistribuição de produtos.
Somente em agosto de 2026, foram captadas 100 toneladas de alimentos, destinadas a 300 instituições e aproximadamente 60 mil pessoas, segundo balanço divulgado em setembro.
O abastecimento reúne doações de empresas que atuam na central e produtos adquiridos da agricultura familiar pelo Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
Outra iniciativa é o Sesc Mesa Brasil RJ, que recolhe alimentos próprios para consumo que deixariam de ser comercializados e os encaminha a instituições socioassistenciais cadastradas.
O programa também promove atividades educativas sobre aproveitamento integral dos alimentos e mantém parcerias com agricultores de Nova Friburgo para recolher excedentes da produção.
A Ação da Cidadania, responsável pela campanha Natal sem Fome, também atua na arrecadação e distribuição de alimentos.
Na sede nacional da organização, no Rio, o banco de alimentos e a Cozinha Solidária integram ações de preparo de refeições, formação em gastronomia social e cultivo de hortas.
Leis estaduais fortalecem segurança alimentar
A Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro aprovou medidas voltadas à ampliação do acesso à alimentação e ao enfrentamento da insegurança alimentar.
Entre elas está a Lei 10.543/2024, de autoria da deputada estadual Renata Souza (PSOL), que instituiu o Programa Estadual para a Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar, Pequenos Produtores e Pescadores Artesanais.
A legislação prevê a aquisição de produtos para atender pessoas em situação de vulnerabilidade e abastecer restaurantes e cozinhas comunitárias, coletivas e solidárias.
Outra medida é a Lei 10.702/2025, de autoria do deputado Danniel Librelon (Republicanos), que instituiu o Programa de Segurança Alimentar para Atendimento de Pessoas em Situação de Rua.
Já a Lei 10.793/2025, proposta pela deputada Marina do MST, estabelece a notificação compulsória de casos com indícios de insegurança alimentar e nutricional por profissionais e gestores da área da saúde.
As normas buscam fortalecer a identificação de situações de vulnerabilidade e ampliar as políticas de proteção alimentar no estado.
Combate ao desperdício também começa dentro de casa
Além das políticas públicas e iniciativas sociais, especialistas destacam que pequenas mudanças nos hábitos domésticos podem contribuir para reduzir o desperdício.
Planejar as compras, verificar os alimentos disponíveis na geladeira e na despensa e evitar adquirir quantidades superiores ao consumo da família são algumas das recomendações.
A dona de casa Simone Benase, de 48 anos, conta que passou a prestar mais atenção à quantidade de alimentos comprados.
“Quando jogo comida fora, sinto que estou jogando dinheiro fora também. Por isso, passei a conferir o que tenho em casa antes de comprar e a levar só o que consigo consumir”, relata.
Ela também procura aproveitar partes dos alimentos que normalmente seriam descartadas, como cascas de frutas utilizadas no preparo de sucos.
Cascas, folhas e talos podem fazer parte das refeições
A nutricionista Lilian Gullo explica que diversas partes dos vegetais, frequentemente descartadas, podem ser utilizadas em preparações nutritivas.
Talos de brócolis, couve e beterraba podem enriquecer sopas, refogados e recheios.
Folhas de cenoura e beterraba podem ser aproveitadas em omeletes, bolinhos e farofas.
Já cascas de abóbora, batata e berinjela podem ser utilizadas em receitas assadas e refogadas, desde que estejam próprias para consumo e sejam corretamente higienizadas.
“Combater o desperdício significa reconhecer o valor de cada alimento e de cada pessoa que trabalha para que ele chegue até nós”, destaca a nutricionista.
Como contribuir para o combate à fome
Pessoas e empresas interessadas em participar de iniciativas de doação de alimentos podem procurar organizações que atuam na redistribuição de produtos e no atendimento a famílias em situação de vulnerabilidade.
O Instituto Fome de Tudo recebe contatos de empresas e instituições interessadas em estabelecer parcerias pelo e-mail contato@fomedetudo.com.
O Sesc Mesa Brasil RJ também orienta possíveis doadores por meio do endereço mesabrasil@sescrio.org.br.
Já a Ação da Cidadania mantém campanhas de arrecadação e mobilização social, incluindo o tradicional Natal sem Fome.
As iniciativas demonstram que o enfrentamento da fome depende de ações integradas entre poder público, empresas, produtores rurais, organizações sociais e consumidores.
Reduzir o desperdício significa não apenas preservar recursos naturais e diminuir prejuízos econômicos, mas também ampliar as possibilidades de garantir alimentação digna à população.
