Mais um pênalti não marcado para o Vasco, desta vez pela arbitragem de Ramon Abatti Abel, reforça a urgência de uma mudança profunda no futebol brasileiro. O VAR não resolveu o problema, e a inteligência artificial precisa ganhar poder real nas decisões.
Por Gustavo Valente | Fato Fluminense

Chega! Chega de tratar a inteligência artificial como uma possibilidade distante para o futebol. Depois de tantos erros de arbitragem, está na hora de reconhecer que sua utilização deixou de ser apenas uma alternativa interessante. Tornou-se uma necessidade.
O jogo de quarta-feira (4), entre Vasco e Athletico-PR, trouxe mais um exemplo do problema. Aos 25 minutos do primeiro tempo, o goleiro Mycael atingiu o atacante Brenner durante uma disputa de bola dentro da área. Um pênalti claro, na minha avaliação, que o árbitro Ramon Abatti Abel simplesmente deixou passar.
E o VAR? Também não recomendou a revisão.
O responsável pela arbitragem de vídeo era Daniel Nobre Bins, que manteve a decisão tomada em campo. O lance foi considerado pênalti por comentaristas de arbitragem como PC Oliveira e Renata Ruel.
Mais uma decisão equivocada, mais uma rodada de reclamações e mais uma discussão sobre a atuação de quem deveria garantir o cumprimento das regras.
O episódio acontece poucos dias depois da polêmica envolvendo Anderson Daronco na partida entre Vasco e Palmeiras, pela Copa do Brasil. Naquela ocasião, também houve uma reclamação contundente por um pênalti não marcado.
Dois jogos, duas decisões questionadas e uma constatação: o VAR, da maneira como funciona atualmente, não resolveu o problema da arbitragem brasileira.
E pouco importa que o Vasco tenha conseguido virar o jogo e vencer o Athletico-PR por 3 a 1. O resultado não apaga o erro.
O VAR enxerga, mas quem decide continua sendo o árbitro
Quando o árbitro de vídeo foi introduzido no futebol, a promessa era reduzir os erros que interferem diretamente nos resultados das partidas.
A tecnologia trouxe avanços. Hoje, temos dezenas de câmeras, imagens em alta definição, recursos de câmera lenta e diferentes ângulos de um mesmo lance.
Mas existe uma contradição nesse sistema.
Toda essa estrutura tecnológica continua subordinada à interpretação humana. O VAR pode recomendar uma revisão, apresentar imagens e alertar sobre possíveis equívocos. Entretanto, nas decisões subjetivas, a palavra final permanece com o árbitro de campo.
E é justamente aí que está o problema.
Podemos colocar vinte câmeras, cinquenta monitores e uma central de operações inteira à disposição da arbitragem. Se a decisão continuar dependendo exclusivamente da interpretação de uma pessoa, os erros continuarão acontecendo.
Não adianta modernizar as ferramentas e manter praticamente intocado o modelo de decisão.
A inteligência artificial precisa assumir o protagonismo
Defendo que a inteligência artificial seja utilizada de maneira ampla nas decisões mais importantes de uma partida.
Pênaltis, impedimentos, expulsões, faltas decisivas e outros lances capazes de mudar o resultado de um jogo deveriam passar por sistemas inteligentes, alimentados com imagens, dados e critérios técnicos previamente estabelecidos.
Uma IA desenvolvida especificamente para essa finalidade poderia analisar simultaneamente diferentes ângulos, identificar contatos, calcular posições, reconhecer movimentos e comparar situações semelhantes com os critérios definidos pelas regras.
Tudo isso em poucos segundos.
E, principalmente, sem sofrer a influência da pressão da torcida, do peso da camisa, da reputação de um jogador ou do ambiente de uma decisão.
Isso não significa afirmar que a inteligência artificial seja infalível. Sistemas também podem apresentar falhas, especialmente quando precisam interpretar situações complexas.
Mas existe uma diferença fundamental: um sistema pode ser testado, auditado, corrigido e aperfeiçoado continuamente, com critérios transparentes e resultados mensuráveis.
A tecnologia já participa de decisões objetivas, como na identificação de impedimentos semiautomatizados. O próximo passo precisa ser muito mais ambicioso.
O futebol não pode continuar nas mãos dos mesmos árbitros
Existe outro problema que raramente recebe a atenção necessária.
Quem acompanha o futebol brasileiro há décadas percebe que os principais campeonatos continuam sendo comandados, durante longos períodos, por um grupo relativamente restrito de árbitros.
Os nomes se repetem. As polêmicas também.
A sensação transmitida ao torcedor é a de que, independentemente da gravidade de determinados erros, pouca coisa muda.
É verdade que existem avaliações internas, afastamentos e medidas administrativas. Mas quantas dessas decisões são explicadas com transparência ao público? Quantas vezes um erro decisivo resulta em uma consequência proporcional ao prejuízo esportivo provocado?
O jogador que falha pode perder a posição. O treinador que acumula resultados ruins é demitido. O dirigente que não entrega resultados sofre pressão.
E o árbitro?
Muitas vezes, depois de uma sequência de atuações questionadas, continua recebendo novas escalas.
Há ainda uma peculiaridade nesse mercado: diversos ex-árbitros encontram espaço como comentaristas de arbitragem após encerrarem suas carreiras.
Não há problema algum em aproveitar a experiência desses profissionais na televisão. O questionamento é outro: até que ponto um ambiente formado e analisado, em grande parte, por pessoas que passaram pelo mesmo sistema consegue promover uma transformação profunda?
O futebol precisa de renovação, independência e mecanismos mais rigorosos de avaliação.
A inteligência artificial não precisa substituir o árbitro. Precisa ter autoridade
Não estou defendendo um futebol sem árbitros.
O juiz continuará sendo necessário para conduzir a partida, administrar conflitos, aplicar medidas disciplinares e lidar com situações que exigem intervenção humana.
Mas considero ultrapassada a ideia de que sua interpretação deva prevalecer sobre qualquer recurso tecnológico disponível.
A inteligência artificial precisa deixar de ser apenas uma ferramenta de consulta e passar a ter autoridade efetiva sobre a maior parte das decisões capitais.
Para isso, seria necessário desenvolver sistemas específicos, estabelecer critérios objetivos, realizar testes rigorosos e promover mudanças nas regras e nos protocolos internacionais.
Nos lances em que a tecnologia alcançar níveis comprovadamente superiores de precisão, sua decisão deverá prevalecer. Nas situações em que ainda existir ambiguidade, haverá espaço para revisão humana.
O objetivo não é trocar um erro humano por um erro de máquina. É construir um sistema em que as decisões sejam cada vez menos dependentes de interpretações individuais.
O futebol precisa evoluir antes que outro campeonato seja decidido por um erro
O futebol movimenta bilhões, envolve a paixão de milhões de pessoas e determina o destino financeiro e esportivo de clubes inteiros.
Uma decisão equivocada pode eliminar uma equipe, comprometer uma temporada, provocar a demissão de um treinador e representar prejuízos milionários.
Não é razoável que, diante de tantos avanços tecnológicos, continuemos aceitando erros grosseiros como parte inevitável do espetáculo.
Durante muito tempo, ouvimos que os erros de arbitragem faziam parte do futebol.
Essa justificativa não serve mais.
A inteligência artificial não eliminará imediatamente todas as controvérsias. Mas pode reduzir a influência de interpretações inconsistentes, estabelecer padrões verificáveis e oferecer uma ferramenta muito mais eficiente para proteger a justiça esportiva.
O lance de Vasco e Athletico-PR é mais um episódio de uma discussão que já deveria ter ultrapassado o campo das possibilidades.
Não precisamos de mais câmeras para mostrar o erro. Precisamos de um sistema capaz de impedir que ele determine o resultado.
CHEGA! O futebol não precisa apenas de um VAR melhor. Precisa de uma arbitragem em que a inteligência artificial tenha poder real de decisão.
