Moradores e entidades da sociedade civil em ato na Vila Cruzeiro, no Complexo da PenhaMoradores e entidades fazem ato na Vila Cruzeiro contra a Operação Contenção, em 31/10/2025 (imagem de arquivo). Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Relatório divulgado no dia em que a ação mais letal da história do Rio completa um ano diz que lentes estavam bloqueadas em 36% dos momentos com disparos e pede responsabilização de comandantes

A organização internacional Human Rights Watch (HRW) divulgou nesta quarta-feira (28) um relatório que aponta manipulação de câmeras corporais por policiais e falhas graves na investigação da Operação Contenção, realizada há exatamente um ano nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio. A ação deixou 122 mortos, entre eles cinco policiais, e é considerada a operação policial mais letal já registrada em um único dia no país.

Segundo a entidade, a polícia descumpriu decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) e seus próprios protocolos, e a operação parece ter sido planejada para ser letal. Para a HRW, as provas reunidas indicam que agentes podem ter matado de forma intencional dezenas de homens e adolescentes.

Lentes cobertas e câmeras esquecidas em viaturas

A organização analisou cerca de 4,4 mil horas de gravações de 527 policiais militares, além de 9 mil páginas do inquérito e 122 laudos de necropsia. De acordo com o levantamento, as lentes estavam obstruídas em 36% dos momentos em que é possível ouvir tiros. O relatório descreve agentes que deixaram os equipamentos ligados antes da operação até a bateria acabar, cobriram as lentes, posicionaram as câmeras de forma a não registrar nada ou as deixaram dentro de veículos. Nenhuma das mortes aparece nas imagens entregues à Defensoria Pública.

Os laudos analisados mostram que mais de 40% das vítimas que não eram policiais foram atingidas na cabeça e quase 75% levaram ao menos um tiro nas costas. A HRW também afirma que as cenas não foram preservadas e que a Polícia Civil deixou de coletar informações básicas sobre 115 dos 117 mortos que não eram agentes. Ainda segundo o relatório, apenas sete suspeitos feridos foram levados ao hospital e presos, contra 117 mortos pela polícia.

Pedido de investigação independente

A entidade recomenda uma apuração completa e independente sobre o planejamento da ação e as decisões de comandantes e autoridades, e defende que os Ministérios Públicos Federal e do estado abram processos criminais e civis. A HRW também sugere que o governador eleito, que assume em janeiro, proponha uma lei para separar a perícia criminal da Polícia Civil. “Nossa investigação mostra que a polícia violou a lei e seus próprios protocolos”, afirmou César Muñoz, diretor da organização no Brasil.

A versão oficial das forças de segurança é de que os mortos que não eram policiais morreram em confronto. O Fato Fluminense não localizou manifestação do governo do estado sobre o novo relatório até a publicação desta matéria.

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Com informações da Human Rights Watch. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil (imagem de arquivo).