Companhia mineira Trupe Qualquer apresenta montagem que mistura teatro, música ao vivo e reflexões sobre identidade, sucesso e questões raciais no Centro Cultural Justiça Federal

A literatura de Machado de Assis ganha uma nova interpretação nos palcos cariocas. A companhia mineira Trupe Qualquer, de Juiz de Fora, estreia no Rio de Janeiro, no dia 7 de novembro, o espetáculo “Um Homem Célebre”, no Centro Cultural Justiça Federal (CCJF), no Centro da cidade. A montagem integra a programação especial da Mostra Consciência Negra e permanece em cartaz até o dia 29.

Com texto e direção de Rafael Coutinho e supervisão dramatúrgica de Pedro Kosovski, a peça reúne elementos de três contos do escritor brasileiro: “A Igreja do Diabo”, “O Espelho” e “Um Homem Célebre”, que dá nome ao espetáculo.

A história acompanha Pestana, um compositor de polcas que alcança enorme popularidade na sociedade do século XIX, mas enfrenta um conflito pessoal: apesar do sucesso, não consegue realizar seu maior desejo, criar uma obra musical erudita.

A partir desse dilema, a montagem aborda questões relacionadas à identidade artística, ao reconhecimento social, às frustrações pessoais e às contradições da sociedade brasileira.

Machado de Assis sob uma perspectiva contemporânea

A encenação combina humor, crítica social e referências contemporâneas para estabelecer um diálogo entre a obra machadiana e os desafios atuais.

Um dos aspectos centrais da montagem é a valorização da negritude e da ancestralidade de Machado de Assis, utilizadas como elementos para compreender as questões sociais e raciais presentes em sua literatura.

Mestre e doutor em literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rafael Coutinho explica que a proposta não foi simplesmente transportar os contos para o teatro, mas criar uma nova obra a partir deles.

“Escrever a partir da obra de Machado de Assis é um desafio, ele é um dos maiores prosadores do planeta. A ideia não era encenar os contos, mas, sim, fazer uma espécie de antropofagia com eles, criar algo novo a partir deles”, afirma o diretor.

Música ao vivo integra a narrativa

A música desempenha papel fundamental no espetáculo. Em vez de funcionar apenas como acompanhamento, a trilha participa diretamente da construção da história.

A banda formada por Caio Ferreira, Raquel Souza e Wendy Ferreira executa as composições ao vivo, misturando referências da polca do século XIX com sonoridades urbanas e contemporâneas.

A trilha sonora original é assinada por Jeann Cavallari, que também integra o elenco ao lado de Beatriz Lira, Christiam Concolato, Giovanna Stehling e Thiago Andrade.

A proposta é criar uma experiência que una literatura, teatro popular e música, características presentes na trajetória da companhia.

Companhia mineira chega ao Rio após circulação nacional

Fundada em Juiz de Fora, a Trupe Qualquer vem consolidando sua atuação no teatro contemporâneo brasileiro por meio de espetáculos que exploram diferentes linguagens artísticas.

“Um Homem Célebre” estreou em 2024, na cidade mineira, e já passou por palcos de Belo Horizonte, São João del-Rei e pelo Festival de Curitiba de 2026.

O grupo também acumula trabalhos reconhecidos nacionalmente, como “Memento Mori” e “Café com Leite”, este último indicado ao Prêmio CBTIJ, voltado ao teatro para crianças e jovens.

A temporada carioca representa uma nova etapa na circulação do espetáculo, aproximando o público do Rio de Janeiro de uma releitura contemporânea da obra de um dos maiores nomes da literatura brasileira.

Serviço

Espetáculo: Um Homem Célebre
Temporada: 7 a 29 de novembro de 2026
Dias e horários: Sábados, às 19h, e domingos, às 18h
Local: Centro Cultural Justiça Federal (CCJF)
Endereço: Avenida Rio Branco, 241, Centro, Rio de Janeiro
Ingressos: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia), disponíveis pela Sympla
Classificação indicativa: 14 anos
Duração: 105 minutos